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Fri, Dec

A LENDA DO PESCADOR ENCANTADO

Contam os mais antigos, que um patriarca de uma grande família, lá pras bandas de Raposa – MA, era conhecedor de muitas rezas e orações, que o protegia de tudo e de todos que o tentassem atingir. E que essas rezas e orações constavam em um livreto de família, passado de pai para filho de acordo com o merecimento. Esse pescador de porte atlético e altura mediana, além de tranquilo, também era muito brincalhão.

E sempre tinha respostas e recomendações para todos que o procurasse. Porém, não levava desaforo para casa, e ai de quem mexesse com os seus. Suas pescarias eram sempre bem sucedidas, pois cautelosamente sabia o local e a hora exata de colocar a rede de pesca no mar.

E assim, passaram-se os anos e com a aposentadoria, abandonou a pesca e dedicou-se a criação de galinhas, porcos, gado leiteiro, e a cultivar em sua roça, ervas medicinais, legumes e verduras, em seu pequeno sítio que ficava em frente a um conhecido porto da cidade. Certa vez, aborrecido com um vizinho de quem já havia alertado pela invasão de animais em sua roça, ele manda um recado ao mesmo dizendo que dá próxima vez que um boi ou um porco do vizinho invadisse sua roça, ele mataria o animal à bala, e enviaria metade para o dono.

A outra metade ele ficaria para cobrir seus prejuízos. Num final de tarde, após ser acordado por um de seus netos, e ser informado de que uma porca estava destruindo seu roçado. Ele pega sua espingarda e parte para a roça. Lá chegando, percebe o estrago que o animal fez, e diante de muita raiva, matou a parca à bala, dividiu-a em duas partes, e manda entregar a metade ao seu vizinho. Recomendando ao mesmo que nunca duvidasse da palavra de um homem. Seu vizinho revoltado com o acontecido. Manda devolver a metade da porca, e que irá até a sua casa para acertar as contas com ele.

Os filhos e netos do Pescador Encantado ficaram apreensivos com o recado. E ele calmamente, diz a eles que não se preocupem, pois nada o atingiria. O vizinho armado com uma espingarda cartucheira chega até a porta do Pescador Encantado, e o chama de velho covarde e frouxo. Que se fosse homem metesse a cara na porta pra levar chumbo. Sentado tranquilamente em um banco de madeira na sala se sua casa, o Pescador Encantado se levanta, e parte em direção ao vizinho revoltado e armado. O vizinho armado o insulta, e ele diz que tem mais o que fazer do que ficar batendo boca com os outros.

E que havia avisado seu vizinho várias vezes, antes de tomar aquela atitude. Nesse momento, uma bezerra do Pescador Encantado passa entre os dois, e o vizinho atira na mesma. Que não foi atingida pelos chumbos. E falando em alto e bom tom, diz ao Pescador que para a bezerra, ele havia carregado os cartuchos.

Mas, para o Pescador será o diabo que irá carregar. E atira no peito do Pescador Encantado. Percebendo que os chumbos que atingiram o pescador não penetraram em sua pele, o vizinho parte para cima do pescador com a espingarda, e tenta golpeá-lo. Porém, acaba sendo dominado pelo mesmo, que lhe toma a espingarda, a quebra em sua coxa, e dá uma surra daquelas no seu vizinho.

Depois o manda para casa, recomendando ao mesmo que respeitasse seus cabelos brancos. Anos depois já bem idoso, o Velho Pescador Encantado ao acordar, pede a toda família que naquele dia ninguém saísse de casa, e que não perguntassem por quê.

Após o almoço em família, chama um dos netos para o seu quarto, e a portas fechadas conversa com o mesmo durante um bom tempo, e o entrega seu livro de rezas e orações. E pede ao mesmo que saísse do quarto, pois gostaria de descansar e que não fosse incomodado por ninguém. Horas mais tarde, ao perceberem que ele não levantou na hora de costume, foram até seu quarto e encontraram o Velho Pescador descansando eternamente.